Numa época em que a alienação impera e a arte tornou-se meramente figurativa, esvaziada de conteúdo, o poema “Aos Novos Artistas”, escrito por Eduardo Waack, é um brado de resistência à massificação. Ele nos lembra que o essencial permanece, enquanto as banalidades se esvaem no tempo e no espaço. Nas galerias, livrarias e salas de cinema as franquias dominam e o lucro exacerbado, junto à vaidosa fama e ao glamour, são os fins almejados. Todos querem parecer bonitos nas fotografias… Ezra Pound dizia que o poeta é a antena da raça. São os artistas seres diferenciados, cuja missão é um apostolado para ser exercido com humilde determinação. Interpretando o mundo que os cerca, transformam a sociedade e os costumes, rompendo paradigmas e libertando o homem das algemas de si mesmo.

 

2, deus e o diabo na terra do sol, glauber rocha

 

Este filme conta com imagens que nos fazem refletir e viajar no tempo e no espaço. Mostram aqueles que antes de nós vieram, desbravando caminhos, e pagaram muitas vezes com a vida o preço de sua ousadia. Por ordem de entrada, aparecem: Clarice Lispector; O Vampiro de Dusseldorf (1933), filme dirigido por Fritz Lang; Isadora Duncan; Tropical (1917), pintura de Anita Malfatti; Inezita Barroso; Grande Otelo e Oscarito em Matar ou Correr (1954), filme de Carlos Manga; Bidu Sayão em Serenata (1933); Heitor Villa-Lobos; O Encouraçado Potemkin (1925), filme de Sergei Eisenstein; Charles Chaplin em The Kids (1921); Monteiro Lobato; Rudolf Nureyev; Allen Ginsberg & Bob Dylan lendo trechos de On the Road no túmulo de Jack Kerouac; Mario de Andrade; O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), filme de Glauber Rocha; e a grande musa de todos nós, Ilma Fontes.

 

3, ilma fontes, 18 de agosto
Ilma Fontes fotografada frente ao rio Sergipe dia 18/08/2019

 

A jornalista, poeta e cineasta sergipana Ilma Fontes, figura legendária da cultura brasileira, da nordestinidade e da literatura alternativa, magistralmente declama o poema. Ilma dirigiu o primeiro filme sergipano — “Arcanos, o Jogo” — e é fundadora da TV Educativa de Sergipe. Editou por três décadas O Capital, jornal de resistência ao ordinário, e publicou em 2019 “Nervuras, poesia em carne viva de Ilma Fontes”. Ela que nos disse, um dia: “as perguntas nunca são impróprias, mas as respostas podem ser inconvenientes”… Na gravação que agora apresentamos, quem captou o áudio foi Ruan Pedro Fernandes. Na trilha sonora incidental utilizamos um trecho do Adagio de Johann Sebastian Bach.